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Crônicas Nikkeis #10—Gerações Nikkeis: Conectando Famílias e Comunidades

O Espírito Altruísta

Troy com o pai, a mãe e o avô num jantar da comunidade

Pela janela do meu quarto, vi um azulejista colocando meticulosamente novos ladrilhos escuros ao longo da borda da piscina no quintal da casa da minha família. Nos dias seguintes, fiquei checando o andamento do trabalho na nossa piscina, esperando ansiosamente poder ver o resultado final da reforma. Quando o trabalho finalmente chegou ao fim, notei que de perto os azulejos eram incrivelmente bonitos; os azuis e marrons do design criavam um conjunto caótico de beleza. Quando os ladrilhos são moldados, eles formam um padrão intrincado com aparência única. Cada experiência é como um azulejo que é adicionado ao design, o qual acaba moldando e delineando o esquema da minha vida.

Durante a minha infância, o meu pai e meu avô desempenharam um papel importante na formação dos meus valores pessoais por meio de diversas atividades relacionadas à família. O amor deles pelo esporte me inspirou a dar o máximo de mim no basquete, arco e flecha, natação e tênis. Viajamos por todo o mundo: Conhecemos a cultura das Bahamas, vimos o Carnaval de Inverno anual de Quebec e os trenós puxados por cães, como também a grande variedade de vida selvagem no Parque Nacional Denali do Alasca. O espírito empreendedor deles me incentivou a assumir um papel de liderança na escola e na comunidade.

Um pedaço de azulejo que ficou na minha mente é o que chamo de “Espírito Altruísta”. Meu pai me ensinou várias lições de vida; ele sempre me lembrava: "Pensa primeiro em dar, antes de pensar em pedir!" Em outras palavras, “Como posso ajudá-lo(a)” em vez de “Como você pode me ajudar”. Naturalmente, como o caçula da minha família, cresci recebendo muitos brinquedos e presentes, e por isso era sempre uma luta constante para que eu seguisse as palavras do meu pai. No começo, eu não tinha vontade de ser caridoso ou ajudar os outros; por sua vez, o meu pai usava essa minha hesitação como uma oportunidade educacional e para fortalecer os nossos vínculos familiares.

Na cidade de Irvine [cerca de 70 km ao sudeste de Los Angeles], conhecida pela sua universidade e empresas que fazem parte da lista Fortune 500, está situada a Tanaka Farms, um paraíso agrícola de propriedade de nipo-americanos repleto de milharais, hortas e pomares exuberantes. “Walk the Farm” ["Caminhe na Fazenda"], o evento anual de arrecadação de fundos realizado em junho, é uma tradição familiar desde 2015. O tema da caminhada é Kibou, ou Esperança. A caminhada foi iniciada em 2011 após o terremoto de 9 pontos e o tsunami em Tohoku, e continua até hoje a arrecadar dinheiro para ajudar os agricultores japoneses afetados pela devastação. Todos os anos, enquanto caminho pela fazenda saboreando frutas e verduras ao longo da trilha de 2,5 quilômetros, os meus pensamentos pouco a pouco vão mudando até se transformarem numa apreciação de como uma fazenda local pertencente a nipo-americanos pode usar a sua plataforma para se conectar com pessoas no Japão, doando o seu tempo e dinheiro.

Troy caminhando pela fazenda com o proprietário Glenn Tanaka

Queen Mary é conhecido em todo o mundo como um navio icônico ancorado em Long Beach. No meu mundo, o Queen Mary simboliza a elegância e a beleza com as quais a minha avó, Reiko Miyazato, viveu a sua vida gloriosa. “Caminhe para Acabar com Alzheimer’s” é uma caminhada para arrecadação de fundos realizada anualmente em Long Beach; a nossa família toma parte nela desde 2016, ano em que a minha avó faleceu devido a complicações da doença de Alzheimer. A caminhada de 4 quilômetros ao longo da orla de Long Beach traz à nossa família boas lembranças da minha avó, e sempre fazemos questão de parar em frente ao Queen Mary para tirar fotos de família.

Este evento também é educativo para mim porque serve como uma lembrança dos desafios que o meu avô e meu pai tiveram que enfrentar quando lidaram com o estigma cultural associado à doença de Alzheimer e a outras doenças mentais na comunidade japonesa. Minha única recordação da minha avó é do quanto eu gostava de brincar com ela, sem ter a menor ideia das dificuldades pelas quais a minha família estava passando. Agora que estou mais velho, a minha família me ensinou a nunca ter vergonha do que os outros possam pensar; e por mais difíceis que as coisas estejam, é essencial ter a coragem de compartilhar a sua experiência com outras pessoas no mesmo caminho.

Para pôr esta lição em prática, há dois anos criei a minha própria equipe, o "Time Troy", para ajudar a arrecadar dinheiro e aumentar a conscientização sobre a doença de Alzheimer por meio do programa "Caminhe para Acabar com Alzheimer’s". Também me tornei um "embaixador da mídia social" para a organização Alzheimer’s Los Angeles, ajudando assim a divulgar os serviços de apoio gratuitos que eles oferecem no Condado de Los Angeles, inclusive para a comunidade japonesa.

Troy com a mãe no evento “Caminhe para Acabar com Alzheimer’s”

Meu fascínio pela Segunda Guerra Mundial teve início bem cedo, quando comecei a ler uma grande quantidade de livros sobre a guerra, admirando os navios de guerra e os caças. Ironicamente, o meu pai sempre apoiou e até trabalhou como voluntário no Centro Nacional de Educação Go For Broke* (sigla em inglês: GFBNEC). O GFBNEC continua a sua missão de compartilhar o legado dos veteranos nisseis e as suas experiências durante a Segunda Guerra Mundial. Eu me lembro do meu pai contando várias histórias sobre a experiência de guerra dos veteranos nisseis, e como ele sempre me ensinou a respeitá-los e honrá-los.

* [Nota do Tradutor: "Go for Broke" é uma expressão que significa "arriscar tudo e dar tudo de si para alcançar um fim" – equivalente a "ou vai ou racha." A expressão foi lema de tropas da Segunda Guerra Mundial compostas por nipo-americanos.]

Devido à influência do meu pai, tive sorte de acompanhá-lo para escoltar os veteranos na Noite Anual do Jantar Aloha do GFBNEC em 2019, empurrando cadeiras de rodas pelo local e conversando com eles antes e depois do evento. Também comecei a trabalhar como voluntário no GFBNEC, ajudando a transcrever entrevistas de veteranos da Segunda Guerra Mundial, o que abriu os meus olhos para as suas histórias do ponto de vista deles mesmos. O Sr. Don Miyada, um veterano da Segunda Guerra Mundial do 100º Batalhão de Infantaria, falou sobre a sua missão perigosa, quando teve que escalar em silêncio um penhasco íngreme durante a noite para penetrar a Linha Gótica que os alemães mantinham no norte da Itália, o que acabou levando à rendição deles.

Troy com o veterano Yosh Nakamura

Ao refletir sobre o “Espírito Altruísta”, não posso deixar de pensar no maior ato altruísta que os nossos destemidos veteranos nisseis da Segunda Guerra Mundial fizeram pelo nosso país. Apesar dos nipo-americanos terem sido internados em campos de concentração e rotulados como “estrangeiros inimigos”, cerca de 33.000 nipo-americanos ofereceram as suas vidas para servir nas Forças Armadas dos Estados Unidos e assim provar a sua lealdade como cidadãos americanos. Seus corajosos feitos ajudaram a dar fim à discriminação não apenas contra os nipo-americanos, mas também contra outros americanos de origem asiática. Como o meu pai sempre dizia: “Pensa primeiro em dar, antes de pensar em pedir”. Os nossos intrépidos homens e mulheres nisseis fizeram de forma abnegada o que sempre me foi ensinado, mas numa escala muito mais grandiosa.

Ainda me encontro numa jornada para botar os meus azulejos lado a lado ao longo de uma extensa e sinuosa estrada. Um ladrilho por vez, espero poder valorizar cada experiência e continuar as atividades que reforçam os nossos laços familiares, ao passo que também dedico o meu tempo para ajudar as nossas comunidades durante o percorrer deste caminho.

 

© 2021 Troy Miyazato

58 Estrelas

Os Favoritos da Comunidade Nima-kai

Each article submitted to this series was eligible for selection as favorites of our readers and the Editorial Committees. Thank you to everyone who voted!

community family volunteers

Sobre esta série

O tema da 10ª edição das Crônicas NikkeisGerações Nikkeis: Conectando Famílias e Comunidades—abrange as relações intergeracionais nas comunidades nikkeis em todo o mundo, tendo como foco especial as emergentes gerações mais jovens de nikkeis e o tipo de conexão que eles têm (ou não têm) com as suas raízes e as gerações mais velhas. 

O Descubra Nikkei aceitou histórias relacionadas ao Gerações Nikkeis de maio a setembro de 2021; a votação foi encerrada em 8 de novembro. Recebemos 31 histórias (21 em inglês, 2 em japonês, 3 em espanhol e 7 em português) da Austrália, Brasil, Canadá, Estados Unidos, Japão, Nova Zelândia e Peru. Algumas foram enviadas em múltiplos idiomas.

Solicitamos ao nosso Comitê Editorial para escolher as suas histórias favoritas. Nossa comunidade Nima-kai também votou nas que gostaram. Aqui estão as favoritas selecionadas pelo comitê editorial e pela Nima-kai! (*Estamos em processo de tradução das histórias selecionadas.)

A Favorita do Comitê Editorial

Escolha do Nima-kai:

Para maiores informações sobre este projeto literário >> 

* Patrocinador de la comunidad:

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