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Amigurumi entrelaça cores e vidas

Amigas há 20 anos, Thaysa e Larissa começaram a fazer amigurumis por hobby (foto: divulgação/Ateliê Pink & Purple)

Duas yonsei que estudaram juntas e mantiveram a amizade, mesmo com a mudança de escola de uma delas no Ensino Médio. Uma é filha de mãe japonesa e pai mestiço (avó japonesa). A outra é filha de mãe mestiça (avô japonês) e pai não descendente. E um interesse em comum entre Thaysa Yuri Endo, de 30 anos, e Larissa Kakizaki de Alcantara, de 29 anos, as aproximou ainda mais.

Hobby que virou ofício

Certo dia, a mãe de Larissa – que fazia crochê como passatempo fez um amigurumi (“ami” significa "agulha" em japonês e "nuigurumi", pelúcia) de Pokémon. “Conheci o amigurumi através da minha mãe. Já conhecia bichos de crochê, mas não fazia ideia de que eles se chamavam assim ou de como aprender a fazer. Quando minha mãe começou a se aventurar por pura curiosidade, me interessei e pedi para ela me ensinar”, conta Larissa. Entusiasmada, a aficionada por animes e games logo procurou mais informações sobre o assunto.

Entre as criações em amigurumi estão personagens de desenhos, filmes e animes (foto: divulgação/Ateliê Pink & Purple)

Já Thaysa aprendeu um pouco com a avó e relata que já havia visto bichinhos de amigurumi nas redes sociais (é apaixonada por “coisas fofas e manuais”!) e no bairro da Liberdade, em São Paulo, onde trabalhou uma época. Além de pesquisar sobre como fazer, o nível de dificuldade, entre outros pontos, consultou a amiga – que indicou diversos canais no YouTube, passando a estudar a técnica através dos vídeos.

“Até hoje aprendemos coisas novas. Sempre que possível, colocamos curiosidades no nosso Instagram”, ressalta a autodidata Thaysa. “Comecei com um barbante, porque eu não queria estragar as linhas [de crochê]. Aí fui atrás de um kit de iniciante e fiz meu primeiro amigurumi”.

Nada menos que o hobby em comum das amigas de infância fez surgir a ideia de montar uma loja virtual, o Ateliê Pink & Purple, que completou 3 anos em novembro.

Essa história começa depois de quase um mês na tentativa de fazer os amigurumis. “Eu estava no banho e pensei em convidar a Larissa para uma sociedade e, por coincidência, a mãe dela no mesmo dia havia sugerido a ela fazermos amigurumi juntas. Foi uma transmissão de pensamento!”, conta. E pela amizade de longa data elas já sabiam que daria certo. Afinal, se conhecem há 20 anos!

Conversaram bastante, pois o que era lazer passaria a ser um trabalho e as duas eram principiantes nos pontos de crochê ou até mesmo no desenvolvimento de alguma receita. “Tomamos coragem e nos empenhamos a criar um logotipo e um nome que, por mais simples que seja, representa nossas cores favoritas, nossa cara!”

Um ponto que chamou a atenção das sócias foi, em especial, a possibilidade de poder fazer de tudo. “Quando decidimos montar a loja, não tínhamos um nicho, então fizemos desde bichinhos fofos a personagens de desenhos e filmes. Hoje em dia abrimos o leque para pets, bonecos personalizados e santinhos, que são o carro-chefe, mas claro que não deixamos de atender pedidos que não sejam relacionados”, afirma Thaysa.

Além disso, no crochê podem-se acrescentar feltro, até mesmo técnicas de feltragem, e arames, o que dá liberdade de explorar mais o amigurumi.

Destaque também para uma característica peculiar do boneco amigurumi: não possuir boca. “Estamos acostumados a ter bichinhos de pelúcia, de plástico, com feições felizes, mas o amigurumi verdadeiro não tem, exatamente para a pessoa sentir que ele possui o mesmo humor ou sentimento que ela naquele momento”.

A dupla fez tudo junto, entre o cartão da loja, flyers, banners – a mãe de Larissa ajudou no site. No dia a dia, elas encarregam-se das encomendas, dos envios via correios, do fechamento e da administração dos perfis no Instagram, no Facebook e no Pinterest, e da loja no Elo7, um site de produtos autorais. “A gente se vira bem, ainda bem que somos duas!” [risos] E acrescenta: “Principalmente quando vem uma encomenda grande!!!”

Eventos e aprendizados

No início, as idealizadoras do Ateliê Pink & Purple fizeram um bazar em parceria com uma prima de Thaysa que também é artesã e fazia bolsas, mochilas e nécessaires com tecido japonês. “Tanto japoneses quanto brasileiros amaram, porque nunca tinham visto os bonecos em crochê. Explicamos de onde veio o amigurumi, como surgiu, e se interessaram, fazendo encomendas”. As crianças adoram os Pokémons enquanto os adultos se encantam com os personagens de filmes e desenhos.

Direto da animação japonesa para o amigurumi, o Totoro encanta crianças e adultos (foto: divulgação/Ateliê Pink & Purple)

O público comprava o que já vinha sendo produzido, como animais e cactos. Vez ou outra surgia algum pedido específico, um deles foi o Totoro (da animação japonesa Meu Amigo Totoro, dirigida por Hayao Miyazaki), que acabou virando “uma febre” no ateliê. Em uma feira, descendentes de japoneses até conheciam a técnica, mas algo como a criatura em crochê era novidade. “Foi paixão à primeira vista!”, relembra. Depois vieram o mestre Yoda (da saga de filmes Star Wars – Guerra nas Estrelas) e os santinhos.

Para esses eventos, vemos o que está na moda para crianças e adultos, e levamos de tudo um pouco. Idosos compram para dar de presente para os filhos, netos e até para eles mesmos.

“Hoje percebemos que o conhecimento do que é o amigurumi cresceu”, declara Thaysa. Tornaram-se comuns os enfeites de porta de maternidade e lembrancinhas de aniversário e casamento, que venderam bastante na internet na pandemia. As crocheteiras descobriram ainda que nikkeis sabem mais sobre o assunto que os não descendentes, mas desconhecem sua origem e quais as possibilidades de se trabalhar com isso.

Clientes fazem pedidos especiais para presentear alguém ou homenagear um pet que faleceu. "Mandamos junto uma cartinha feita à mão, dizendo que é um carinho enorme realizar a encomenda, e um brinde que chamamos de ‘biscoitinho do amor’ ou um chaveiro de coração para os que pedem em nossa loja no Elo7", comenta Thaysa.

Influência da cultura

Thaysa frequentou o colégio japonês Oshiman, onde se valorizam os costumes tradicionais, tanto no estudo quanto na alimentação. “Depois que fui para outra escola perdi um pouco o hábito. Mas minha avó manteve os costumes e valores japoneses da hora do chá, da comida japonesa em casa, do sapato, de nunca ir à casa dos outros sem levar nada, de ter coragem, respeito!” E reforçou os estudos de japonês. “Minha avó me ajudou muito nas lições, infelizmente eu parei no meio por causa da faculdade”.

Enquanto isso, Larissa diz que sempre esteve ligada à cultura japonesa, que despertava sua curiosidade e, ao mesmo tempo, também a fascinava. “Tentei aprender japonês com o meu avô quando bem novinha, mas não fui muito além de algumas palavras. Quando mais velha, fui atrás de aprender um pouco mais sobre a cultura e sobre a família, o sobrenome, apesar de não ter tantas informações disponíveis”. Porém, o próprio avô não era tão apegado a valores e costumes típicos, portanto, a neta aprendeu apenas alguns pratos que ele preparava.

“Com certeza uma palavra que define um aprendizado é a paciência”, assegura Thaysa. “Eu e a Larissa somos ansiosas demais, queremos as coisas bem rapidamente, e no amigurumi é muito erro e acerto, faz e desfaz”, confessa. As peças demandam no mínimo 50 minutos, no caso de receitas prontas, e as que são criadas do zero levam horas ou até dias. Por exemplo, para dar vida a um Totoro de 20 centímetros, foram 14 horas para desenvolver a receita e cerca de 25 minutos para finalizar a costura.

"O respeito e a dedicação ao que te faz feliz vieram dos nossos bisavós, avós, pais e que sem dúvida vamos passar para nossos filhos!", reflete. E lamenta que "hoje em dia falta reconhecimento pela arte, pelo trabalho do próximo". Algo que elas têm feito aos domingos é publicar "um story [no Instagram] compartilhando arte, pequenas empresas, sobretudo durante a pandemia que foi bem difícil para todos os produtores, empreendedores, artesãos!"

Agora, as sócias já têm uma ideia melhor do que é o amigurumi e de como conservar sua origem: "fazer belos amigurimis de desenhos ou animes, kokeshis, comidas" e trazer uma curiosidade sobre. Não só a dupla como também outras artesãs fazem o mesmo, cada uma com seu nicho. Além disso, "pensamos sempre em buscar parcerias com lojas japonesas, como a que temos com um mercado online".

Na opinião de Thaysa, elas aprenderam muitas coisas e têm muito a aprender. "Queremos fazer novos projetos no futuro! Dar aulas, em um curso presencial, e, assim como aprendemos online, queremos fazer vídeos para o YouTube para ensinar outras pessoas". Está ainda entre os planos das fundadoras do ateliê montar kits de amigurumi, de receitas fáceis a difíceis, para as pessoas evoluírem e conseguirem criar seus próprios amigurumis. E, claro, divulgar o que é o amigurumi e as diversas coisas que se podem fazer com ele. "Como dizemos: ‘não tem nada mais carinhoso do que ganhar um presente feito à mão!’"

Contexto histórico do amigurumi

O Japão tem uma rica história de tecelagem, especialmente na arte dos kimonos, em que são utilizadas as tradicionais técnicas de tingimento natural kasuri e shibori.

Os japoneses, sem uma tradição anterior de crochê, inventaram um novo uso em sua cultura. Desenhos são feitos com crochê e às vezes as imagens se tornam pequenas criaturas.

O amigurumi é um fenômeno que tem crescido aos poucos desde a década de 1950, após o fim da Segunda Guerra Mundial. Era uma época em que a cultura japonesa se voltava ao kawaii, criando personagens como a Hello Kitty.

Nos anos 1960, o governo japonês encorajou a expansão econômica por meio da preservação da cultura, dissolvendo comunidades e tradições regionais. Foram desenvolvidos ícones de marketing de massa, espalhando uma força de paz e meiguice para a nova nação de assalariados que transformaram o Japão em uma das maiores economias do mundo.1 

Nota:

1. “What is Amigurumi? Definition, History and Technique”, Amigurumi Today (27 de março de 2018)

 

© 2022 Tatiana Maebuchi

amigurumi Brasil crochê brinquedos
About the Author

Nascida na cidade de São Paulo, é brasileira descendente de japoneses de terceira geração por parte de mãe e de quarta geração por parte de pai. É jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e blogueira de viagens. Trabalhou em redação de revistas, sites e assessoria de imprensa. Fez parte da equipe de Comunicação da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social (Bunkyo), contribuindo para a divulgação da cultura japonesa.

Atualizado em julho de 2015

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