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Histórias de Decasséguis

História nº 5 (Parte I): Clayto - Uma história de sangue, suor & samba

O menino Clayto até que teve uma infância normal, jogando bola no campinho, levando bronca da professora, machucando-se ao escalar montes, quebrando perna e braço subindo em árvores, torcendo o pé ao fugir correndo depois de roubar manga do quintal do seu Zé.

Mas tudo mudou na vida dele quando estava com 8 anos de idade. Sua mãe foi embora para a terra dela, Pernambuco, levando as 2 filhas menores e deixando “o pestinha” para trás. O pai, que já era chegado numa bebida, começou a beber cada vez mais até cair doente, foi internado e depois que teve alta, desapareceu do mapa e nunca mais foi visto. 

Clayto foi morar com os tios, mas sofria constantes maus tratos por ser mestiço. Seu pai, dentre os irmãos, foi o único a se casar com uma não descendente.

Nos primeiros tempos, ele pôde ir à escola normalmente, mas quando passou para o 6º ano do ensino fundamental teve de trabalhar na peixaria do tio, dando duro desde cedo até a noite, então o jeito foi estudar à noite.

Mas quando chegou no 9º ano, envolveu-se com uma turma da pesada e começou a cabular aula. Era uma turma de 6, incluindo alunas, que ficavam andando à toa pelas ruas da cidade. Ele aprendeu a fumar e a beber e o gosto pela novidade foi aumentando de intensidade cada vez mais, acabando por experimentar drogas.

Abandonou a escola aos 16 anos e no trabalho começou a fazer corpo mole, tornando-se um estorvo para o tio. Tanto que acabou sendo expulso de casa. Mas como diz um ditado japonês “Se uma porta se fecha outra há de se abrir”, nem tudo estava contra Clayto.

Havia uma freguesa da peixaria, Miyoko, que tinha um restaurante popular ali perto. Ela logo lhe ofereceu um emprego e até acomodação num quartinho nos fundos do restaurante. Com refeições inclusas, o serviço era ir à feira para abastecer e executar serviços gerais. Para Clayto estava bom além da conta, mas Miyoko tinha segundas intenções.

Miyoko havia ficado viúva cedo, tendo criado sozinha as 3 filhas. Elas ainda eram solteiras e a mais velha estava com 27 anos. Apesar da considerável diferença de idade, ela achou que Clayto seria o genro ideal, jovem e forte.

Um ano mais tarde, algo imprevisto aconteceu: Harumi, a filha caçula de Miyoko ficou esperando um filho de Clayto.

Nessa época o Brasil entrou numa crise econômica sem precedentes, todo mundo apertando o cinto e prevendo dias piores. A mulher, a sogra e até as cunhadas começaram a pressionar Clayto, todas com a mesma ladainha: “A vida tá cada vez mais difícil, tem o aluguel vencendo, a geladeira que não presta mais, a criança que vai nascer, chegou a hora de você ir trabalhar no Japão. Se você não for quem mais vai?”.

Ele não queria ir não. Pai aos 18 anos! Ele se derretia só de pensar no filho que ia nascer. Estava muito feliz, pois finalmente tinha a sua própria família. Explicou para as mulheres da casa que não queria ir para tão longe, mas nem lhe deram ouvidos. Sem outro jeito, teve de embarcar pouco tempo depois.


No começo ele se esforçou e trabalhou duro, mas depois de 1 ano e meio ele se sentiu igual um pedaço de papel amassado jogado na beira do caminho. Um inútil.

Ainda no Brasil, o agenciador garantiu que seria trabalho leve, com direito a muitas horas extras e pagamento de mil ienes a hora.

Tudo conversa fiada. Ele teve de trabalhar fechado num lugar tão quente que a temperatura atingia 33ºC. Os colegas, todos uns robôs, só de ver as caras inanimadas sentia vontade de esmurrar e gritar bem perto do ouvido de cada um deles: “Gente, isto é vida?”.

Pediu as contas, mudou de cidade e foi trabalhar numa fábrica de autopeças, mas largou depois de alguns meses. De tanto apertar parafuso, ele estava com o cacoete de mover a cabeça de um jeito estranho como se ele próprio fosse um parafuso – um parafuso sendo apertado cada vez mais com mais força.

Foi pedir guarida no apartamento de um amigo cuja mulher e filhos tinham voltado para o Brasil e que ficava perto de uma casa de pachinko. Atraído pela fachada berrante e pelos sons que vinham lá de dentro, resolveu entrar. “Isto sim é que é vida!”, pensou ele, ao mesmo tempo lamentando não ter conhecido antes um mundo assim tão sedutor. 

A partir daí tornou-se rotina ficar horas e horas no pachinko, acompanhando o louco trajeto das bolinhas rolando e caindo.

Certo dia, 3 homens de óculos escuros adentraram o estabelecimento parecendo procurar alguém. E no dia seguinte, lá estava Clayto todo posudo na entrada de uma casa noturna numa ruela próxima. Tinha sido contratado para ser segurança e também guarda-costas do chefão.

Teria se dado muito bem no novo emprego se não fosse o aparecimento da garota de cabelos cor da moda e minissaia. Sem saber que ela era a namorada do chefão, ele a convidou para um drinque, motivo por que foi sumariamente despedido.

Parte II >>

© 2012 Laura Honda-Hasegawa

Brazil dekasegi fiction

Sobre esta série

Em 1988 li uma notícia sobre decasségui e logo pensei: “Isto pode dar uma boa história”. Mas nem imaginei que eu mesma pudesse ser a autora dessa história...

Em 1990 terminei meu primeiro livro e na cena final a personagem principal Kimiko parte para o Japão como decasségui. Onze anos depois me pediram para escrever um conto e acabei escolhendo o tema “Decasségui”. 

Em 2008 eu também passei pela experiência de ser decasségui, o que me fez indagar: O que é ser decasségui?Onde é o seu lugar?

Eu pude sentir na pele que o decasségui se situa num universo muito complicado.

Através desta série gostaria de, junto com você, refletir sobre estas questões.