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História da Diáspora Okinawana e a Conquista Silenciosa   

Em 1968 foi descoberto o esqueleto de um menino no sítio arqueológico de Yamashita-cho, próximo ao Porto de Naha, Okinawa. Os testes pelo carbono 14 revelaram que ele tinha 32 mil anos de idade, o mais antigo Homo sapiens sapiens do leste da Ásia. Há cerca de 35.000 anos, alguns austronésios utilizando a “ponte” de ilhas, partiram de Taiwan, passaram pelas ilhas de Yaeyama, Miyako, Okinawa, Amami e chegaram a Kagoshima, Japão. Ao longo de milhares de anos eles formaram o povo paleolítico Jomon em todo o arquipélago japonês, de Ryukyu até Hokkaido. Existe uma lacuna muito grande na História de Okinawa e de seu povo.

Na história recente, as primeiras referências encontram-se nos manuscritos chineses do final do século VII. Os pioneiros portugueses chamavam o Reino de Ryukyu de “Léquias” e os chineses de “Lu Xu”. O nome Okinawa foi mencionado pela primeira vez por um monge chinês chamado Ganjin no ano de 753. Somente no ano 1372 o fundador da Dinastia chinesa Ming, Hung Wu Ti, usou a grafia atual para Okinawa, sendo depois adotado pelos japoneses e coreanos. Os geneticistas ficaram surpresos com o fato de que a afinidade genética dos coreanos com os okinawanos é um pouco maior que a dos coreanos com os outros japoneses, que tem maior afinidade com os chineses Han. Estudos sugerem ainda ligações genéticas da ilha de Okinawa com a Ilha de Creta, possivelmente associados aos navegantes holandeses, e com a Suméria, Cáucaso e Norte da Europa, provavelmente através dos comerciantes chineses mestiços de Xinjiang, fronteira com a Europa.

Pela sua condição geopolítica, Okinawa tinha que manter relações culturais e de negócios com os povos daquela região, antigamente com subordinação fiscal à China e, muito tempo depois, ao Japão. O controle da China sobre o Reino de Lu Xu era feito através de concessão de bolsas de estudos para treinamento de jovens mais talentosos em escolas da China. Além dos comerciantes austronésios, chineses, japoneses e coreanos, passaram por lá várias expedições de povos ocidentais que tinham interesse em exercer a sua influência e/ou domínio político e econômico na região.

Okinawa, uma porta de entrada

Com o fechamento das fronteiras do Japão com o restante do mundo, excetuando China e Holanda, Okinawa era uma porta de entrada distante do Japão. Em cerca de cinquenta anos, de 1803 a 1857, por mais de trinta vezes, navios e esquadras europeias e norte-americanas aportaram em Okinawa. A mais conhecida foi a da Marinha dos Estados Unidos, comandada por Matthew Calbraith Perry (1853-1854) que forçou o Japão a abrir os portos ao mundo. A opinião unânime e surpreendente por parte dos europeus era de que no Reino de Lu Xu  não havia armas e nem incidências de violência pela cortesia infalível e amizade entre todas as classes, pela inteligência de uma “gente escolarizada”, pela ausência de roubos na população comum e achavam estranho quando não aceitavam pagamentos pelas oferendas e serviços prestados aos visitantes estrangeiros. Provavelmente, esse comportamento social dos okinawanos – baseado na filosofia da gentileza – cativava e desarmava todas as intenções do uso de força pelos ocidentais, acostumados com a política de conquista predatória; para dominar o Reino de Lu Xu, a força não era necessária.

Mas a população rural, para se defender dos ladrões e saqueadores, teve que desenvolver a cultura da defesa com as mãos livres, caratê, e com o uso de bastões e ferramentas de trabalho. Essa condição de desarmamento foi fatal para o reino quando, em 1609, autorizado pelo shogunato de Tokugawa, a família do feudo de Shimazu do domínio de Satsuma enviou uma força expedicionária para conquistar Ryukyu. As religiões ou pensamentos filosóficos predominantes eram o confucionismo, xintoísmo e budismo. Alguns missionários cristãos foram enviados ao Reino pelos europeus e norte-americanos para iniciar uma conquista pela mente e preparo do front para o domínio político e econômico, mas não tiveram sucesso. Devido à falta de terra e de recursos naturais, a economia da Ilha sempre foi difícil. A sua sobrevivência e o sucesso dependiam do bom relacionamento com os navegantes mercadores.

Okinawa e a Restauração Meiji

A Ilha de Okinawa tornou-se um local de abastecimento de alimentos, água e combustível (carvão) para os barcos, navio e vapores que por ali passavam; também era o local de descanso e entretenimento dos navegantes. Do início do ano de 1800 até cerca de 1850, as Ilhas de Ryukyu foram assoladas por uma sequência de pelo menos treze desastres naturais, entre tufões, tsunamis e epidemias de cólera, com grandes perdas de vidas humanas. A população deve ter oscilado entre apenas 150 a 200 mil pessoas, com muita pobreza. Não bastasse isso, com a abertura dos portos, seguido da Restauração Meiji, ocorreram mudanças radicais na estrutura administrativa de Okinawa; desfez-se o Reino de Ryukyu, transformando Okinawa em uma província japonesa e abolindo o sistema de tributação a favor da China, mas impondo outros tributos a favor do Japão.

Os períodos Meiji (1868-1912), Taisho (1912-1926) e o início de Showa (1926-1989), foram períodos cheios de problemas políticos e econômicos para o Japão; houve o empobrecimento da área rural e aumento dos desempregados nas cidades, com reflexos negativos até em Okinawa, com o aumento das taxas tributárias. Estas foram as razões  para que os okinawanos, principalmente os heimin, mais pobres, começassem a emigrar, inicialmente para a região de Nara, Wakayama, Kiyoto, Osaka e Hyogo, depois para Havaí, EUA, Canadá, Brasil, Peru, Argentina, Bolívia, México, Cuba, Paraguai, Nova Caledônia e muitas ilhas da Micronésia. Shigeru Narahara, que governou Okinawa de 1892 a 1908, havia já realizado algumas mudanças importantes como organizar o sistema jiwari-sei na agricultura e difundir o sistema de ensino com ênfase no básico, depois secundário, profissionalizante e feminino.

O sistema jiwari-sei era o método de exploração coletiva da terra, onde cada aldeão local, chefe de família, tinha uma área para ser cultivada, mas limitado a alguns anos ou décadas. Todos cooperavam para pagar os impostos anuais ao governo, quem, por alguma razão justa, não estava em condições de cumprir com a obrigação, e os outros aldeões o ajudava cobrir com as despesas. Foi a formação do espírito coletivo dos okinawanos que os imigrantes adotaram também no Brasil, organizando cooperativas, inclusive difundindo o sistema moai conhecido por muitos. Em Campo Grande, MS, atualmente observam-se muitos brasileiros não nikkeis organizando moai.

Após a abertura forçada do Japão, ocorreram muitos fatos positivos, mas também fatos extremamente negativos. Contrapondo aos europeus e norte-americanos, os militares japoneses também se sentiram no direito de criar o seu império na Ásia e Sudeste Asiático. Para os “uchinanchu” (Gente de Okinawa), o holocausto de Okinawa foi a pior tragédia. Após a Segunda Guerra, com as perdas diretas ou indiretas de um terço da população civil, e com as péssimas condições físicas e psicológicas das famílias sobreviventes, a vontade de emigrar continuou mais forte ainda, mas eles não tinham mais condições econômicas para arcar com as despesas de viagem. Alguns que já tinham familiares no exterior foram chamados por elas com as suas passagens pagas, yobi-yose. Nos anos 50, com a soberania sobre a Ilha de Okinawa, o governo dos EUA, interessado em recuperar a sua credibilidade junto à população, investiu em programas de colonização e assentamentos de okinawanos na América do Sul, em parceria com os países receptores, também de interesse da política externa dos EUA.

A imigração japonesa

Os primeiros migrantes japoneses, incluindo os okinawanos, tinham o objetivo de ir e voltar. Mas, a realidade foi bem diferente, muitos conseguiram retornar, mas a maioria não. Tiveram que criar e conviver numa nova sociedade, uma sociedade multiétnica e pluricultural, gerando questões psicossociais, também novas. A discriminação sempre esteve presente nas classes média e alta, que diminuiu ao longo dos anos, principalmente pelo crescimento econômico do Japão e pelo exemplo dos isseis e seus descendentes realizando trabalhos árduos com honestidade e competência. Os primeiros casamentos entre etnias diferentes foram bastante traumáticos, mais ainda porque ocorriam com pessoas de menor estudo e classe social mais “inferior”. Muitos não suportaram esta situação. Os primeiros miscigenados foram crianças bem aceitas, saudáveis e alvos de curiosidades. Com o tempo verificou-se que muitas das crianças eram muito bonitas; jovens nisseis e sanseis passaram a ter sonhos de namorar e casar com uma mestiça. Hoje, muitos gaijins querem se casar com as “japonesas”. Cada vez mais, as as novas gerações têm uma postura menos traumática e participam da sua nova sociedade de igual para igual.

Família Shinzato

Nota: A saga e a força da Família Shinzato, uma das pioneiras da imigração, foi brilhantemente retratada no livro “Uchinanchu, Cidadãos do Mundo – Sonhos e Ilusões de Um Visionário e Uma Heroína”, obra de 600 páginas de autoria do jornalista Eron Brum, com a valiosa colaboração de Ilton Guenhiti Shinzato.

 

*Publicado no jornal O progresso de Dourados (MS) em 02/08/2014, este ensaio está sendo reproduzido aqui com a devida permissão da família do autor.

 

© 2020 Ilton Guenhiti Shinzato

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