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A vida de um tigre

Mudamos recentemente para a França. Mesmo sem dominar a língua, foi uma mudança bastante tranquila uma vez que obtivemos várias informações pela internet, livros e principalmente pelas duas viagens prévias que fizemos anteriormente. Para facilitar ainda mais, contamos com uma empresa contratada que deu todo o suporte necessário para providenciar documentações, aluguel, escola das crianças, ligação de água, luz, telefone, TV a cabo, internet, aquecimento, registro na prefeitura etc.  Fora isso tínhamos fluência do inglês que, na pior das hipóteses, serviu como uma terceira língua e principalmente um suporte financeiro que, caso não desse certo, nos permitiria retornar ao Brasil e recomeçar a vida. Isso sem falar que havia um emprego, uma fonte de renda, garantida. Se todas as mudanças fossem assim, eu sugeriria fazê-la pelo menos umas três vezes na vida. Uma vida rica é uma vida cheia de histórias para contar. Mas nem sempre foi assim.

Na década de 70, mesmo quem morava em grandes centros como São Paulo, sofria de pequenos apagões que chegavam a durar algumas horas. Sinal de aumento de demanda,  crescimento urbano e linhas subdimensionadas, aliada à falta de tecnologia da época.

Como esses apagões eram bastante frequentes, minha mãe já dispunha de um kit contendo várias velas e uma caixa de fósforo. E como éramos crianças ainda e tínhamos um grande medo do escuro ficávamos todos alí juntos na sala de estar, sentados ao redor da mesa. Sem eletricidade, sem televisor ou qualquer outra tralha eletrônica com que pudéssemos nos distrair, ela contava histórias de como era a vida, quando morava no sítio, numa longínqua cidade chamada Bastos no interior de São Paulo. Invariavelmente ela sempre começava com a história de um certo escritor que com bastante sacrifício escrevia durante à noite sob a luz gerada por vários vagalumes colocados dentro de um frasco de vidro. Contava isso talvez prevendo dias difíceis para todos nós e já alertando que precisaríamos nos esforçar e dedicar bastante aos estudos.

Grande parte das histórias eram sobre a vida no sítio onde passara sua infância, das histórias contadas pela minha avó e que algumas vezes tinham acontecido antes mesmo dela nascer. Contava com orgulho como era o meu avô, nascido no Hawai mas filhos de japoneses, como ele trabalhava e cuidava da família. Antes de embarcar para o Brasil, por volta de 1930, deixou um filho e uma filha ainda pequenos aos cuidados dos meus bisavós com a intensão de retornar o mais breve possível. Após navegar durante semanas, aportou no porto de Santos e seguiu num trem rumo ao interior paulista. A língua era estranha assim como eram as pessoas, os costumes, os alimentos, o clima, a religião, a política, ou seja, absolutamente tudo. E não havia retorno pois basicamente vinham só com o dinheiro da passagem e alguns bens pessoais. Ao chegar ao local onde residiriam durante algum tempo e construiriam um lar, só havia floresta e à minha avó restou chorar.

O ser humano gosta de aventura. Está no seu gene o espírito nômade, de explorar o desconhecido em busca de uma vida melhor. Assim foram também os nossos antepassados que migraram da África para o resto do mundo atravessando regiões áridas, planícies congeladas e a vastidão do mar. Quem poderia afirmar para os que primeiramente aportaram na Ilha de Páscoa que existia vida a milhares de quilômetros no meio do Pacífico, como ninguém afirmou que havia terra próspera se atravessassem o Estreito de Behring ou mesmo o Deserto do Saara. Esses pioneiros apostavam a própria vida assim como da família sem saber se seriam finalmente recompensados.

Assim também foi o meu avô, como também os que vieram com ele. Formaram uma pequena comunidade e aos poucos cada um foi construindo, sempre no espírito cooperativo, os seus próprios “empreendimentos”. E aos poucos a família foi aumentando, nasceram os meus tios, a minha mãe, e mais alguns tios depois. Para que tivessem uma perspectiva melhor de vida, foram orientados a trocar a vida regrada e dura da roça por uma vida de estudo nas grandes cidades. Todos eles crescendo e cada qual tomando o próprio rumo, constituindo novas famílias.

Finalmente a missão do meu avô, aqui no Brasil, havia terminado. Restava retornar ao Japão e reencontrar os que haviam ficado. Não ficou rico, nem famoso. Mas estava satisfeito com o que havia produzido pois no fundo o seu espírito estava simplesmente feliz.

Antes de retornar ao Japão, em 1963, novamente estava no porto de Santos. No mesmo porto onde um dia chegou amedrontado e apreensivo. Já dentro do navio rumo ao Japão, olhou para um lado e viu a terra que já não era mais desconhecida, mas que fora domada, onde cultivou e progrediu, e depois olhou para o outro lado onde só tinha o mar. Mas além daquela imensidão do mar sabia que havia uma terra que um dia teve que deixar para trás. Retornaria, enfim, para aqueles que haviam ficado. Mas desta vez olhou com os olhos de um vencedor, com os olhos de um tigre (“tora”), mas não com os olhos de um tigre qualquer, mas o melhor deles, o principal, o número um (“iti”), como era o seu nome, Toraiti.

© 2013 Ruy Koga

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