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Outras Memórias da Imigração: Japoneses no Rio de Janeiro

Ao ingressar no curso de História da Universidade Federal Fluminense aos 18 anos de idade estava diante de um novo mundo: discussões acaloradas, listas inesgotáveis de bibliografia sugerida pelos professores, enfim, um universo único de imensas possibilidades estava diante dos meus olhos. Diante daquela miríade de temas, assuntos e enfoques, no segundo período busquei a posição de assistente voluntária em uma pesquisa a respeito de História Econômica do Brasil Colônia, contudo não obtive o posto. Observando um livro sobre o Japão, o pesquisador elogiou a minha iniciativa de ir sozinha buscando coisas que me interessavam e a minha sede de aprender sempre mais, por fim me aconselhando a explorar o meu potencial em uma área que me chamava atenção desde minha infância: os Estudos Japoneses.  

Aos poucos fui acumulando leituras e à medida do possível comparecia aos principais eventos relacionados à cultura japonesa no Estado do Rio de Janeiro. Por exemplo, o Festival de Tanabata do Instituto Cultural Brasil-Japão, localizado no Bairro do Castelo, na cidade do Rio de Janeiro, e os Festivais de Cinema Japonês organizados pelo Centro Cultural e Informativo do Consulado Geral do Japão do Rio de Janeiro em parceria com instituições nipo-brasileiras. Apesar do contato direto com os japoneses e seus descendentes, de acordo com a bibliografia existente sobre a Imigração Japonesa no Brasil, a imigração para o Estado do Rio de Janeiro simplesmente nunca teria existido. Além de São Paulo, algumas poucas obras abordavam a presença e as diversas contribuições dos japoneses e seus descendentes na Amazônia, Nordeste e Sul, porém o Rio de Janeiro era uma grande lacuna.

São Paulo é o grande enfoque, colocado como o paradigma, um tipo de modelo absoluto, que explicaria toda a experiência da imigração japonesa para o Brasil, justificado principalmente por ter sido o “marco inicial” e pelo grande fluxo. Contudo,

“(...) os testemunhos a respeito da história das imigrações japonesas no Brasil pareciam definitivos com os acontecimentos já estudados e definidos. Esteriótipos foram criados e consolidados especialmente nos estudos sobre São Paulo e Paraná (...). Quanto estudiosos de imigração japonesa se referem ao Estado do Rio de Janeiro o fazem de maneira vaga e imprecisa, como se nada de relevante tivesse acontecido por aqui” (INOUE, 2002, p.4)

Como seria explicada a existência e atuação de diversas instituições – com funções e atividades diferentes – criadas e mantidas por e/ou para imigrantes japoneses no Rio de Janeiro se toda a bibliografia sobre a imigração japonesa, e até mesmo muitos historiadores e pesquisadores da História do Rio de Janeiro, não reconhecia a sua presença no Estado? As evidências bem claras da presença numérica e cultural dos japoneses no Rio de Janeiro mostravam a necessidade de resgatar a memória desses imigrantes, muito menos numerosos que no vizinho paulista, é fato, mas com uma especificidade própria, que merecia e precisava ser trazida à tona.

Após ingressar no curso de Letras – Português/Japonês da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a fim de tornar-se proficiente em língua japonesa, permitindo que eu também pudesse circular entre a bibliografia em japonês, pude juntar-me a um projeto de pesquisa em andamento a respeito da Imigração Japonesa no Estado do Rio de Janeiro. No projeto tive acesso aos trabalhos da Professora Mariléia Inoue, com quem também pude dialogar, mais especificamente à “No Outro Lado Nasce o Sol: O Trabalho dos Japoneses e seus Descendentes no Estado do Rio de Janeiro”, sua tese de doutoramento defendida do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de São Paulo no ano de 2002. Recorrendo a documentos oficiais, como listas de registro da entrada de imigrantes, e entrevistas com japoneses e nipo-descendentes de várias áreas do Estado do Rio de Janeiro, através das quais conseguiu ter acesso a um variado conjunto de documentos particulares dos mais diferentes tipos: cartas, fotografias, diários, entre outros. Inoue concluiu que a colônia japonesa fixou-se na área menos nobre da atual área metropolitana da capital, em especial na Baixada Fluminense, dedicando-se principalmente à agricultura e ao desenvolvimento de técnicas de cultura da laranja, goiaba, caqui, tomate, leguminosas, hortaliças e flores.

A partir de um movimento de migração interna, parte da colônia dirigiu-se posteriormente à região litorânea do estado. Ligando-se à indústria pesqueira desenvolveu técnicas de pesca, construção de barcos e preparo do pescado. Ressaltando em seu trabalho a instalação pioneira de uma escola de pesca em Cabo Frio, buscando treinar mão-de-obra especializada para a atividade pesqueira. Além da presença japonesa nessas atividades, encontram-se registros de nipônicos e seus descendentes em atividades urbanas, nos setores industrial, comercial e serviços.

Tomando como base o trabalho da Professora Inoue e diversas entrevistas que eu realizei ao longo do projeto, decidi pensar de quer forma o Estado do Rio de Janeiro aparecia em meio às Comemorações do Centenário da Imigração Japonesa. De acordo com a Associação para as Comemorações do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil as principais finalidades dos festejos organizados para lembrar os cem anos eram: manifestar gratidão pela receptividade dos brasileiros e pelo feliz convívio com os demais imigrantes; fortalecer os laços da comunidade nipo-brasileira no Brasil e no Japão; fortalecer o relacionamento bilateral Brasil-Japão e, por fim, valorizar e incrementar a divulgação da cultura japonesa no Brasil e da cultura brasileira no Japão. A Comissão para as Comemorações no Estado do Rio de Janeiro partir para um levantamento da sua “própria história”, onde pudemos observar um reforço na trajetória de personagens do período comumente definido como “pré-imigratório” ou “pré-Kasato Maru”, ou seja, aquele compreendido entre a assinatura do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação entre Brasil e Japão (1895) e a chegada do navio Kasato Maru (1908) desembarcando com os “primeiros” imigrantes japoneses no Porto de Santos. Trazendo figuras como Saburo Kumabe, chegado em 1906 ao Rio de Janeiro, adquirindo terrenos na região de Macaé; Wasaburo Otake, que teria chegado ao Rio de Janeiro em 1890 com a tripulação do Cruzador Almirante Barroso; e Fukashi Sugimura, membro da Legação Japonesa teria chegado ao Rio de Janeiro em 1907, procurou-se conferir destaque à comunidade Nikkei do Rio de Janeiro, afirmando que a imigração japonesa iniciou-se aqui e não em São Paulo. Em outras palavras, não podendo competir em termos numéricos com o fluxo migratório que se dirigiu a São Paulo, tentou-se obter visibilidade à comunidade do Rio de Janeiro no contexto nacional das Comemorações.

Agora, mais de um ano após a celebração do centenário, restam diversos livros, artigos, reportagens, documentários, entre outros materiais produzidos. Os espaços de discussão e os esforços organizados a fim de produzir não podem ser facilmente desmantelados ou perdidos após passar toda a “empolgação”. Cabe aos pesquisadores e também às instituições nikkeis, especialmente no Rio de Janeiro, reacender os holofotes e prosseguir com as pesquisas e trabalhos, analisando e buscando uma série de documentos e depoimentos ainda em meio à poeira e fadados ao esquecimento.

© 2010 Aline Rocha de Souza

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